Seu gosto pousa na minha língua e desce minha garganta,
agarrando-se aos lados e impedindo minha respiração. Você me sufoca com sua
presença e com sua falta. Me desce até o estômago e de lá não sai mais,
acumula-se, cresce à cada novo “olá” e a cada conhecido “adeus”. Te abraçar não
teria sentido depois da imagem intocável que criei de você. Essa imagem sorri,
gentil, e senta-se ao meu lado enquanto luto para abandonar meus pensamentos
sobre você e ingressar num sono leve e conturbado, onde meus sonhos adquirem a
imagem de teu rosto e a curvatura de teu corpo.
Todos temos medo, meu amor. Não há uma alma pertencente à
este planeta que não tema o futuro ou o desconhecido. Alguns simplesmente
resolvem ignorá-lo e ainda têm a cara de pau de dizer que são corajosos demais.
Ah... se pudesses ver como se escondem nas cobertas e rezam à Deus por
proteção...
Eu tenho medo. Medo do escuro, de tomar algumas decisões e
até de ir à cozinha sozinha no meio da noite. Mas eu vou, acendendo cada luz
até chegar lá.
Deixa-me ser tua luz. Deixa eu iluminar seu coração e
espantar os medos para algum lugar feio e escuro. Eu não apagarei, eu não
soltarei sua mão até que você tenha forças o bastante para rir quando tudo
estiver desmoronando. Te guiarei pelos caminhos mais convenientes e te explicarei
meus medos, meus atos inconsequentes e estúpidos. Você verá que perdemos tempo
demais jogando e esquecemos que o jogo real estava passando de fininho por
entre nossas pernas, escapando em direção ao passado, para nunca mais voltar.
Mas, se teu medo deixar-te cego a ponto de fazer as escolhas
erradas sem nenhum receio, observarei de longe a sua imagem desaparecer e se
instalar no meu passado. Apesar dos machucados, das cicatrizes, das novas
feridas que ainda estão rosadas, eu lembrarei de ti eternamente da seguinte
forma: os olhos a brilhar e a refletir meu sorriso mais honesto.
O passado é uma história escrita em pedra.
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