domingo, 1 de abril de 2012

A barreira entre a tristeza e a alegria.

Sorrisos de canto de boca. Palavras mal pronunciadas. Cheiro de cigarro pairando pelo ar, infiltrando-se em cada um presente naquele cômodo abafado. Uma fraca iluminação era proveniente de outro cômodo, perto daquele, onde pessoas riam e entonavam uma série de sentenças aparentemente felizes, como se fosse uma festa eterna e os anjos circulassem por entre sofás amarelos, servindo copos de vodka e whisky. Mas, ali naquele quarto abafado com cheiro de cigarro e trapos espalhados pelo chão, o clima era feroz e pouco se ouvia. Sobrevivia-se apenas os que conseguiam se manter quietos, controlando a mente antes que essa perdesse a sanidade e começasse a jogá-los contra as paredes cinzas com marcas de arranhões. O segredo era o auto-controle, mas nem todos nascem com essa característica. 
Existia sempre o sujeito que depois de uma semana cercado por silêncio, tosses, soluços e os costumeiros risos vindos do quarto ao lado esquecia o som da própria voz e até como se formar uma sentença, acabando soltando uma quantidade exagerada de saliva ao gritar sem parar o quanto aquele lugar era insuportável e aquelas pessoas repugnantes, concentradas em seu próprio mundo imaginário. Mas nada daquilo era imaginário, era a realidade que segurava a pele de cada um e puxava, deixando o sangue escorrer pelo corpo até o chão já manchado de um vermelho-vinho assombroso. 
Não existe saúde do corpo sem a saúde da mente, e, com este fato, mais uma das pessoas dali desaparecia, indo para um lugar que ficava alguns andares abaixo. Diziam que era ainda mais escuro, sem nenhum resquício de luz, e, que se você fechasse seus olhos em algum momento - para descansar ou dormir - sentia-se dedos finos e compridos passando pelos seus pés e pernas. Sem um minuto de descanso, com a mente inibida pelo medo, morriam centenas de pessoas. Dali, para onde iriam? Era uma das perguntas que ninguém saberia responder, apenas as pessoas bonitas e sorridentes que ficavam no quarto iluminado.
Depois de vários dias sem banho ou comida, alimentando-se apenas do sangue que escorria da pele dos mortos que eram encaminhados para o outro andar, os mais pacientes recebiam uma espécie de sinal. Ninguém sabe ao certo dizer qual a sensação, pois assim que este sinal era enviado eles logo se transformavam em luz, iluminando por um momento aquele pequeno quarto. Assim, com o ponto brilhante flutuando no ar, as pessoas desconcentradas e frágeis assustavam-se com a feiúra umas das outras, soltando berros e redescobrindo sua própria voz, agora rouca e abafada pelo medo.
O ar se esgotava nos pulmões de cada um e o silêncio se estabelecia conforme a luz se transportava pela pequena fresta na parede, seguindo em direção ao outro quarto. Um pequeno tempo de silêncio absoluto era quebrado por saudações, risadas e o barulho de uma garrafa sendo aberta - sons que desanimavam alguns e incentivavam outros a atravessar a pequena barreira que separava a tristeza da alegria.
Tudo depende do modo como você encara as coisas.

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