Por dentro e por fora,
a imagem era a mesma:
uma onda de dor
que se alastrava,
sacudia,
destruía,
não deixando nada em seu redor,
me quebrava em duas,
quatro,
mil.
espalhava meus pedaços por um mundo
em que nunca estive
e que não pretendo visitar,
mas que me assombra algumas noites,
chamando pelo meu nome
e me fazendo implorar por quem
uma vez eu fui.
O sol não ilumina, ele queima,
o vento não refresca, só empurra.
me leva embora da minha pele
e me joga nos lagos do passado,
que em breve se tornará futuro.
não dá pé,
eu não sei nadar,
e o que se esconde embaixo
na minha infância já visitou meus pesadelos.
pesadelos continuam a pesar,
e sonhos não existem mais.
fecho os olhos e volto a abri-los
com a mesma imagem diante de mim
e com o mesmo som a adentrar meus ouvidos.
gritos e batidas,
a ira e a dor:
ignoro o sofrimento
e passo meu batom,
ignorando o mundo
e enfrentando-o ao mesmo tempo.
Vago pelas ruas de concreto,
olho para prédios vazios de esperança,
deixo o café me tirar o peso
mas deixo o peso do mundo em meus ombros.
Não ando mais,
corro com passos lentos.
abro os olhos buscando socorro
mas nada me acode,
nada me olha de volta.
estou sozinha na avenida de minha ilusão,
e não saio daqui pois os carros são muitos
e suas velocidades excedem o limite.
limito-me a observar os mesmos comportamentos,
das mesmas pessoas,
nos mesmos lugares,
e me pergunto se essa é minha vida,
ou uma peça que já decorei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário