domingo, 6 de novembro de 2016

menina do vestido amarelo

o que te mantém distante, daquele desejo que sucumbiu ao tempo, daquele toque que transcendeu as camadas da vida, queimando sob a pele, queimando sob o sol daquele verão? nós éramos crianças tão alegres, vívidas - te adorei desde que minhas paixões eram adorar pessoas que nunca conheceria - e, que, de fato, nunca conheci. mas eu conheci você. cada parte sua: partes da sua personalidade que se escondiam por baixo de seus cachos escuros, partes da sua adorável personalidade que você permitia que se perdessem por baixo de imperfeições tolas, invisíveis aos meus olhos e aos olhos de todos que te amavam. você sempre teve a energia de um ser vivo em total movimento: correndo por campos eternos, com o suor escorrendo pelo seu vestido amarelo, com seus cachos embalados pelo vento e o sorriso que nunca deixou seu rosto. mas meu bem, o tempo não tem piedade, anda de mãos dadas com a vida, sem se importar sobre a cabeça de quem está pisando. pessoas erradas cruzaram teu caminho, fizeram seu coração de jantar e limparam as suas emoções com um palito do canto de seus dentes. como poderia uma pessoa se refazer? como poderia a alegria daquela minha menina se reerguer dos escombros do que havia sobrado de sua integridade? de sua fragilidade? as paredes que você ergueu são grandes demais; a menina que corria alegre agora senta no topo de sua torre, com a ilusão de que a felicidade vive naquelas paredes de concreto. e eu observo. aquela menina, não existe mais. você me empurrou pra longe com sua fortaleza, você matou todas as flores daquele campo, você cobriu o sol com uma nuvem preta e agora tudo é frio e cinza. eu te amei, por tempo demais. eu te amei de longe, enquanto te olhava lá de baixo, enquanto te via encurralada, cega pelo seu orgulho, cega pelas suas paredes gigantes. agora o que te cerca é a chuva, a sua alegria se perdeu e você não sabe mais identifica-la, tornou-se frágil no momento que fostes mastigada. te vejo daqui de baixo e com um sorriso no meu rosto e lágrimas nos olhos, espero que um dia você reencontre aquela menina linda e cheia de alegria, que vocês deem as mãos e quebrem a marteladas esse castelo que só te fez mal. eu espero que você se lembre de mim. não como a pessoa que agora te vira as costas e caminha para longe, mas como a garota que sempre te lembrou do sol que vivia em sua alma e sempre acreditou que um dia iriamos, juntas, correr por todo aquele campo até que nossos pés não aguentassem mais e que nossos cabelos se mesclassem ao vento e assim voaríamos, sumiríamos, viveríamos na eternidade do "aqui".

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